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2010

Direto de Milão: entrevista com a trend hunter Fabiana Maioli

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Postado por Patricia Postado em Novidades

A cada nova solicitação de pesquisa que realizamos nos cercamos de profissionais
multidisciplinares. Tudo para entregar ao cliente um trabalho com visões diferentes, mas
com resultados concretos. E foi num destes projetos que encontramos com o talento da Fabiana Maioli.
A gaúcha, que reside atualmente na Itália, é a nossa caçadora de tendências. E, vem ao blog falar da vida e
de suas descobertas ao redor do mundo. Confira abaixo:

A cada nova pesquisa que realizamos nos cercamos de profissionais multidisciplinares. Tudo para entregar ao cliente um trabalho com visões diferentes, mas com resultados concretos. E foi num destes projetos que nos encontramos com o talento da Fabiana Maioli. A gaúcha, que reside atualmente na Itália, é a nossa caçadora de tendências. E, vem ao blog falar da vida e de suas descobertas ao redor do mundo. Confira abaixo:

2010

- 2Day – Nos conta um pouco da tua vida. Onde nasceu, estudou, etc..? E qual é e como optou pela sua formação?

Fabiana - Nasci em Bento Gonçalves em 1975. Estudei em rígidas escolas católicas, como era comum no interior e sempre fui rebelde, nunca me adaptando aos esquemas tradicionais. Em casa sempre tivemos um grande suporte na área artística e intelectual: meus avô paterno e meu bisavô materno eram carpinteiro e marceneiro respectivamente, e o primeiro, nas horas de folga fazia para nós mesinhas e cadeiras de brinquedo; meu tio, Roali Majola, é um fotógrafo-artista ao qual tenho uma grande admiração (foi ele que iniciou a fotografia profissional no RS), minha mãe, que hoje é artista plástica, desenhava, pintava, costurava, bordava, enfim, era muito ‘prendada’; minha irmã além de ser formada em arte era marchand em uma galeria que á época era a maior do interior do RS, e então era normal, natural, o nosso convívio diário com o fator artesania e arte, percurso orgânico para o design.

Quando criança, sempre gostei de desenhar, de criar, de ser curiosa com qualquer objeto ou acontecimento, de admirar por horas a fio o casco de uma joaninha, por exemplo. Era uma criança introversa em função de um defeito congênito em minha perna direita, o que fez com que tivesse que ficar meio imóvel (sempre com gesso) até os meus 6-7anos. E a fuga disso era simples e divertida para mim: quando o tempo permitia, meus pais colocavam um cobertor na grama do nosso jardim, sob ele meus brinquedos, livrinhos de colorir, massinha de modelar, livrinhos infantis, folhas brancas e lápis de cor. Foi assim que me alfabetizei e aprendi a desenhar, para passar o tempo. E conversava com os passarinhos, com os caracóis, com as aranhas de jardim e etc. Uma fabiana no país das maravilhas (risos).

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Fonte: TEA TRENDS, dirigida por Domenico Fucigna

Então creio que quando se é uma criança que não pode descobrir o mundo ’com as suas próprias pernas’, automaticamente a psique cria um refúgio, um mundo interno muito rico onde a fantasia e a criatividade se unem, e quando encontram uma via de saída– no meu caso o desenho – é aí que você encontra o mundo a que você pertence de fato. O processo de ‘colocar coisas no mundo’ mesmo que sejam desenhos toscos de uma criança de 5 anos, auxilia a não entristecer, a não desistir fronte a qualquer obstáculo e cria um amálgama que blinda o seu caráter. Então talvez esta aproximação inicial fantasiosa mas também ‘esperançosa’ com a vida tenha sido fundamental na escolha do design como profissão e na forma com que enfrento os desafios concretos da vida que se apresentam – porque o designer nada mais é do que um profissional que concretiza o que antes era um sonho, um devaneio, uma idéia e não se detém até que não encontre uma solução para o seu ‘problema’. Ele não desiste. Poeticamente, ele sempre tem esperança.

Na época do vestibular na minha cidade não haviam cursos relacionados a esta área e meus pais não tinham condições de enviar-me para estudar fora de casa e então resolvi começar pelo curso de graduação em tecnologia moveleira, que era o que mais se aproximava do design. Este ainda não era palavra conhecida, digamos, e todos perguntavam porque eu não havia escolhido o direito, arquitetura, administração… Mas eu intimamente acreditava que seria apenas o início. E assim foi. Concretamente, estudei Tecnologia em Produção Moveleira, sendo aluna da primeira turma de formandos. Após realizei uma Pós-Graduação em Design de Produto. No mesmo ano, fui convidade (tinha apenas 24 anos!!) a coordenar e dar aulas num curso que eu auxiliei inclusive a criar na UCS: O Curso de Extensão em Design de Móveis, em uma parceria maravilhosa com a Florense. Formamos mais de 5 turmas e muitos designers conhecidos no RS hoje tiveram aí seu primeiro berço do design. Era uma proposta muito inovadora á época, e contei com os Irmãos Campana como professores, quando eles ainda não eram tão conhecidos, com Renata Rubim, Roberto Gil e muitos designers estrangeiros de passagem pelo Brasil. Contamos também com muitas vindas de Sérgio Rodrigues e realizamos os primeiros workshops de criatividade voltada ao design de móveis. Foi uma época maravilhosa também para mim.

O tempo passou, fui trabalhar nos EUA e no Peru, e mais tarde, já no Brasil, com a intenção de realizar um ano sabático, vim a Milão realizar um Master em Management of Creative Process, na IULM, a mais prestigadas escola de comunicação da Itália e há pouco também me especializei em Trendsetting pelo Instituto de Design Europeu.

- 2Day – Como é um dia na vida da Fabiana, uma segunda-feira, por exemplo.

Fabiana – Meu dia normal começa com um café passado (não vou acostumar jamais com a força do espresso!) um ‘brioche’ da padaria siciliana aqui do lado de casa, uma olhada nas notícias do Brasil, o que está acontecendo no design, na moda e nas artes aqui em Milão (porque sempre tem uma novidade que no dia anterior que eu não estava sabendo!) e saio para um trendhunting.

- 2Day – Você é uma trend hunter. Que caminhos trilhou para chegar a este posto?

Fabiana – Bem, como trendhunter trabalho para um bureau de pesquisa e análise de tendências, onde temos clientes como Diesel, RAI (Tv italiana do nível da Globo), Salvatore Ferragamo, Fasolo, Aprilia, Intesa Sao Paolo (banco nacional ao nível do Itaú), La Rinascente, Benetton, entre muitos outros.

O que significa? É estar com uma máquina fotográfica na mão (ou um celular bem discreto dependendo do caso), um caderno de notas na outra e as antenas ligadas no mundo ao redor. A pé, no trem, via metrô. O meio de transporte ás vezes tem significado também. Vou observando, analisando, sentindo, criando cenários e estórias. Sabe quando você é criança e olha para alguém e tenta imaginar a vida que esta pessoa leva? Eu faço isso a todo momento, busco elementos no vestuário desta pessoa, em seu modo de andar, de segurar a bolsa, do jornal que está lendo, e crio estórias. Como ela vive? Quais serão seus sonhos? Esta estória é para mim mesma, são elementos importantes para que eu comece a compreender o sistema no qual esta pessoa quer se inserir ou já está inserida e isso se dá através dos códigos, que sem querer ela mostra.

Mas este dia-dia não é fixo. Existem dias de visitar museus, feiras de bairro, lojas chics e aquelas de periferia, frequentar bares da moda e outros nem tanto, ficar caminhando por aí, mas com rumo. Conversar com pessoas, fazer amigos, criar relações. Ontem mesmo fui na Trienalle (museu de design) e na saída quando estava colhendo castanhas no jardim encontrei um senhor idoso vestido á moda Ralph Lauren e falando com ele vi que era um mendigo. Mas não parecia. O que isso quer dizer? Como se encaixa na realidade atual? São estes sinais de rua muitas vezes considerados ‘bobos’, que dão muitas vezes starts para desenvolvimentos de coleções ou produtos para nossos clientes.

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Fonte: TEA TRENDS, dirigida por Domenico Fucigna

- 2Day – Aliás, quais são as qualificações que um trend hunter deva ter?

Fabiana – O trendhunter não é um ET criativo, um outsider que parece ter saído do último editorial de moda da revista Dazed and Confused. É uma pessoa normal com um bom background profissional, ótima visão analítica, interessante estória de vida, boa base acadêmica sim – esta profissão tem seus códigos e referenciais teóricos – e, fundamental: não tem preconceitos, é curiosa ao extremo e vive no Mundo. Para nós não existem fronteiras de etnias nem de nacionalidade por exemplo, o trendhunter deve viver no planeta terra, conectado, sem confins…Porque o que ele busca são comportamentos de consumo.

Para ser um trendhunter, além das características acima, recomendo uma boa bagagem acadêmica. Tracei que eu queria ser uma pesquisadora e analista de tendências há  dez anos atrás quando ainda trabalhava no Brasil e a minha diretora de marketing á época comentou que uma fornecedora havia um designer que girava o mundo fazendo fotos, recolhendo materiais e que na volta, desenvolvia os produtos de acordo com esta pesquisa. Decidi que eu queria ser este profissional. Tracei uma meta, li os livros que tinha que ler, frequentei os cursos certos, ouvi os professores justos e a cumpri. Um curso fundamentalna minha formação, além do master aqui foi o Procedência e Propriedade com o Charles Watson, no ateliê dele do Rio de Janeiro, onde você muda – ou descobre – a sua vida criativa para sempre. Ele foi um divisor de águas, tanto profissional como pessoalmente. Cito também o contato como aluna com meu mestre Domenico de Masi, com o qual compreendi o valor de desenvolver a criatividade pessoal para uma melhor adaptação a um estilo de vida ‘cidadã do mundo’.

No vídeo abaixo, você confere as 20 maiores tendências de 2010, pelo site Trend Hunter:

- 2Day – Hoje se fala muito em tendências. Mas na tua visão de profissional o que define realmente uma tendência? E qual a maior dificuldade em detectar influências hoje?

Fabiana – Hoje, no mundo das tribos, para falar em tendências você tem que filtrar por assunto. Existe a macrotendência social, a política, a religiosa. Elas vão gerar as microtendências nos setores da vida das pessoas como arquitetura, moda, design, etc.

A maior dificuldade as empresas para detectar a tendência é  justamente definir para onde olhar.  Você  é uma fabrica de móveis? Não basta vir a Milão uma semana em Abril, olhar só a Fiera Rho e voltar para o Brasil e dizer: isso é tendência. Isso é cópia que você  fez do fabricante que estudou este produto com no mínimo dois anos antes de você. Não seria melhor que as empresas do Brasil fizessem pesquisas de forma concomitante? Só  assim elas deixariam de ser followers e se tornariam trendsetters.

Para você  ter uma idéia, o nosso bureau antecipa com 24 meses as tendências para a Europa. Ou seja, nós damos aos clientes aqui, com dois anos de antecedência o que o mercado brasileiro do design, por exemplo, vai copiar daqui a 3 anos. Mas fazemos isso porque somos capazes de olhar o mundo de forma transversal. Olhamos a arte, a jardinagem, as peles…e aí chegamos no design. Para criar design não basta olhar para o design. Entende? Tem que ser multidisciplinar e transversal.

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Fonte: TEA TRENDS, dirigida por Domenico Fucigna

- 2Day – A internet está cheio de blogs anunciando tendências, como fazer este filtro? A Internet é o primeiro passo para a realização de uma pesquisa de tendências?

Fabiana – Como dizia meu professor Giovanni Lanzone (Domus Academy) ‘a internet é uma commodity’. Concordo com ele e explico porque: a internet é uma ótima ferramenta de pesquisa sim, mas, não venha me dizer que ela mostra a totalidade da verdade. Ela mostra o que ela – o site – quer e objetiva vender ou divulgar. Nada substitui a experiência de ver uma pessoa se movimentando, a forma com que ela se comunica com o produto que está adquirindo ou em vias de, de experienciar uma roupa na vitrine tendo seu material analisado pelas mãos de um designer que conhece exatamente o processo fabril daquele produto e qual é o seu diferencial, porque ele custa aquilo – porque tem marca ou tem material? E qual é? Esta informação tem muito mais valor. E este é o nosso trabalho, no centro da moda e do design, o que torna esta informação muito mais precisa. Temos mãos, ouvidos e sentidos em todas as capitais do mundo e isso é um material de pesquisa muito maior, porque analisamos a informação, a transformamos em projeto, em produto, coisa que a internet ainda não é capaz de fazer. Ainda!

- 2Day – Em que momento as pesquisas de mercado se encontram com o teu trabalho?

Fabiana – Conhecer o mercado é a função da pesquisa e então ela é fundamental no nosso trabalho. Como exemplo, muitas vezes a tendência eurocêntrica pode não ser compreendida num país islâmico, ou mesmo num país como o Brasil. E então compreender como é este mercado, qual é seu código cultural, por exemplo, faz-se necessário para que uma tendência possa ser percebida ou não.

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Fonte: TEA TRENDS, dirigida por Domenico Fucigna

- 2Day – Quais são as demandas hoje das empresas em relação ao teu trabalho? Digo, o que elas costumam solicitar para você?

Fabiana – O objetivo da empresa sempre é o lucro – hoje preferencialmente se for de forma sustentável – que hoje só acontece se você oferecer ao mercado algo diferenciado, distanciando-se de seu concorrente, certo? Então, quando as empresas nos procuram ela pedem: identifiquem o que o nosso mercado deseja, mas que ele ainda não sabe e nos apresentem já em produto, não em idéias. É um trabalho previsional baseado em análise, conhecimento profundo do mercado, da estória e evolução das marcas, permeado com inputs dos atuais e futuros consumidores.

- 2Day – Nos conte um pouco da tua demanda e das tuas descobertas no projeto que você participou, em parceria com a 2Day, no bairro Azenha, em Porto Alegre.

Fabiana – Este projeto foi sensacional, de verdade. Foi a primeira vez que trabalhei com um antropólogo brasileiro e com uma equipe do calibre da 2Day, numa cidade que amo, num bairro que sempre nos distanciamos por termos ‘preconceitos’: a Azenha. Descobrimos uma outra Azenha dentro dela, com pessoas sensíveis, como em uma comunidade do interior, foi como estar em casa. O trabalho de identificação das características do sistema deste bairro, de seu mood, certamente será  conduzido da melhor maneira pela Rotta Ely, que foi visionária ao contratar uma trendhunter e um antropólogo para isso. Eles estão de parabéns, até porque, para teres uma idéia, este tipo de solicitação de consultoria (ramo construtora) aqui na Europa não existe…!!!

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Fonte: TEA TRENDS, dirigida por Domenico Fucigna

- 2Day – E quais os teus planos para o futuro?

Fabiana – Quero continuar me especializando na área e logo mais voltar ao Brasil para levar toda esta nossa expertise e conhecimento. Levar a cultura da pesquisa e análise de tendências da forma séria e honesta como a que fazemos aqui. O Brasil é fantástico, o empresariado é muito capaz e estamos no nosso melhor momento em décadas. É hora de criarmos as nossas tendências. Chega de cópia!!!

- 2 Day – Deixe nossos internautas com algumas referências tuas: dicas de livros,CDs, filme e até vídeo preferido no Youtube.

Fabiana - Nosso bureau tem dois livros publicados aqui na Itália que eu recomendo como leitura para iniciar a compreensão do que são tendências:

livro1

1.Cenário Tendências Estéticas e Culturais 2010.2011.

Editora Tea Trends Italia

livro2

2.TV NEXT Entertainment. Sobre as Tendências para a TV e Mídias em geral para os próximos anos.

Editora RAI Italia

3.TV NEXT Entertainment. Filme que fizemos sobre as Tendências para a TV e Mídias em geral para os próximos anos. http://www.tealibrary.it/RAI/

Esse post foi publicado de sexta-feira, 15 de outubro de 2010 às 16:33, e arquivado em Novidades. Você pode acompanhar os comentários desse post através do feed RSS 2.0. Você pode comentar ou mandar um trackback do seu site pra cá.

4 comentários para “Direto de Milão: entrevista com a trend hunter Fabiana Maioli”

  1. [...] Eu, Patrícia Longhi, dividi a telinha com a trend hunter Fabiana Maioli, que inclusive já figurou aqui pelo blog, falando das últimas tendências de mercado. [...]

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